De cavaleiros e alienígenas – crônica escrita pelo amigo Zema

Em 1977 surgiu aquela que é considerada, até hoje, uma das obras-primas do cinema moderno: o longa “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, um filme de ficção, tratando da visita de alienígenas à Terra, e que tornaria mundialmente famoso seu roteirista e diretor Steven Spielberg. Recebeu os Oscars de Melhor Fotografia e de Efeitos Sonoros em 1978.

 

Bem, mas o que isso tem a ver com motocicletas, o assunto principal desse pequeno artigo, o qual fui incumbido de produzir? Sim, há muita coisa em comum, e se fizermos relação com o roteiro do filme veremos que os famosos “cavaleiros de aço” sentados sobre suas montarias de duas rodas são, também eles, recebidos como um acontecimento quando se agrupam em qualquer lugar. Uma reunião de motociclistas desperta nas pessoas sentimentos ambíguos, como quase tudo na vida: uns os vêem como anarquistas e bagunceiros, gente sem ocupação que, com o ‘dinheiro do papai’, praticam um estilo de vida completamente dissonante da realidade; outros, por sua vez, os respeitam, admiram seu estilo liberto e nutrem uma pequena ponta de inveja porque, na maioria dos casos, queriam ser como eles. 

O motociclista (ou motoqueiro, discussão besta de semântica bem brasileira) é uma pessoa normal, trabalhadora, pai de família muitas vezes, e que encontra no seu veículo predileto aquilo que a Natureza não lhe concedeu, mas que ele admira nos pássaros: ‘asas’. Como em qualquer tribo, há os bons, e há os outros. Parece existir uma relação direta entre idade e responsabilidade. Mas isso nem sempre é regra. 

Já se disse que as crianças não mentem, e que são os seres mais autênticos à nossa volta. Se isso é verdade ou não, há controvérsias. Porém experimente ficar atento a um menino mirando uma moto: seu olhar inocente e feliz não deixará iludir: ele está analisando aquele que – seguramente – passou a ser o seu grande sonho. É uma relação poderosa, semelhante àquela vivenciada ao voar pela primeira vez. Uma experiência inesquecível. 

Experiência essa que se complementa com a “turma”, a irmandade, os amigos que são feitos nos encontros e nas estradas da vida. Esses bípedes de duas rodas são afáveis, extremamente gregários, sociáveis. Uma vez nesse meio, confiança, amizade e respeito são palavras fortes, que demarcam a relação entre eles. E aqueles que se foram, seja por acidente ou por outros motivos, serão sempre lembrados, mas não com aquela tristeza que é peculiar em outros grupos: nesse caso, os bons momentos e as parcerias engolindo asfalto são a tônica das recordações. 

A liberdade proporcionada por uma motocicleta não se consegue experimentar num automóvel, mesmo que conversível. A leveza da ‘tocada’, e o famoso ‘vento na cara’ são, para o piloto, a adrenalina necessária para complementar uma semana de trabalho, sua ‘cachaça’ com os amigos, seu calmante natural.

Curiosamente, no ano em que “Contatos Imediatos” invadia os cinemas adquiri minha primeira motocicleta. Temos, portanto, a mesma idade. E, talvez, o mesmo sucesso. Jamais me machuquei estando sobre duas rodas. O segredo? Respeito e responsabilidade. Já fiz inúmeros amigos, já vi outros partirem, mas entendo que isso faz parte do ciclo da vida.

A convivência e intimidade cultivadas nos grupos de motociclismo, muitas vezes, não se conseguem numa família consangüínea. É uma relação forte, de gente muito especial. Tão forte que estou me preparando para as comemorações dos dez anos da Lista Shadow, um rol de amigos espalhados por todo esse país e que, anualmente, se encontram para celebrar esse que é um sentimento cada vez mais em falta atualmente: a amizade pura e descompromissada. Essa Lista surgiu na internet, primeiramente através dos proprietários e simpatizantes desse modelo de motocicleta da Honda. Hoje, a grande maioria já nem possui mais a Shadow, mas o contato ficou, e se mantém. Somos bem mais de mil participantes nos fóruns e, agora, amigos que se conhecem pessoalmente (a grande maioria) estão focando Balneário Camboriú (SC), onde reservamos um hotel inteiro para acomodar nossa “família”.

Serão três dias (entre 3 e 6 de junho) em que velhas amizades serão fortalecidas, e novas estarão se concretizando. Alguns dos meus “irmãos” nãometoquenses já me acompanharam num evento anterior, na Serra do Rio do Rastro. E quero deixar aqui o convite: se você quiser conhecer algo que não se vê todo dia, vá a Camboriú. Eu estarei lá. É perto daí, a cidade é linda, e eu garanto que vale a pena. Não fosse assim, e não teríamos gente de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, além de São Paulo e Rio Grande do Sul se deslocando para três dias de divertimento e convivência. Espero aqueles que gostam das duas rodas para uma boa cerveja gelada e muita conversa. Afinal, essa é a nossa “cachaça”.

Zema

ps- este artigo foi publicado no jornal A folha de Não Me Toque – RS

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One response to “De cavaleiros e alienígenas – crônica escrita pelo amigo Zema”

  1. Jorge Luiz da Rocha Machado says :

    Grande Zema!
    Que saudades, amigo.
    Meio que “na moita”, mas sempre pronto a dar uma motocada na velha “Melosa” de guerra!
    Abraços, tchê!
    Jorge.

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